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VIRADA CULTURAL: Orquestra de Câmara da USP e The Central Scrutinizer Band tocam Frank Zappa

In Música, Show on 09/04/2011 at 12:38

Por Tiago Almeida

Frank Zappa

O compositor americano Frank Zappa (1940-1993) possui uma obra tão grandiosa quanto de difícil classificação. Embora muitas páginas já tenham sido escritas sobre seus álbuns ditos de Rock ou Jazz-Rock nada convencionais, talvez os mais fascinantes sejam justamente os menos explorados pelo jornalismo musical: os “Orchestral Works”. A história da relação de Zappa com a música erudita começou aos treze anos, com o fascínio provocado já na primeira audição de “EMS 401, The Complete Works of Edgard Varèse – Vol. 1”, que ele comprou por pouco menos de quatro dólares numa loja de discos do deserto californiano onde cresceu. “Eu comecei a escrever música de câmara quando tinha 14 anos. Ninguém quis tocar aquilo. Então eu peguei a minha guitarra e disse: que se dane! Eu vou fazer dinheiro e conseguir um pouco de sexo”, disse Zappa certa vez, deixando evidente a relação de causa e efeito entre a admiração por Varèse e sua própria obra, erudita ou rock’n roll.

Zappa explorou toda a obra de Varèse durante sua juventude e até tentou, sem sucesso, encontrar o compositor no seu apartamento em Nova Iorque. No aniversário de quinze anos, Zappa pediu de presente à sua mãe um telefonema de longa-distância e conseguiu falar com Varèse, que, na época, estava trabalhando na composição de “Deserts”. “Quando você tem quinze anos, vive no Deserto de Mojave e descobre que o maior compositor do mundo, em algum laboratório secreto de Greenwich Village, está trabalhando numa música sobre sua ‘cidade natal’ você pode ficar muito excitado”, contou Zappa muitos anos mais tarde. “Eu ainda acho que Deserts é sobre Lancaster, mesmo que as ‘liner notes’ do LP da Columbia digam que é sobre algo mais filosófico.”

Frank Zappa

Nas décadas seguintes a esse primeiro encontro, Zappa se empenhou numa revolução estética que tornaria cada vez menos evidente a dicotomia Erudito/Popular na música: “Isso parece frustrar tanto as pessoas sérias quanto o público de rock. Eu não pertenço a nenhum desses mundos”, gabava-se Zappa. Sob esse aspecto, não é coisa de pouca importância que Tom Zé já tenha sido chamado de “the father of invention”, numa referência direta à primeira banda de Zappa, “The Mothers of Invention”. Sobre os Beatles, esclareceu Zappa, “eu não os odeio. Eu até gosto de duas ou três músicas deles. Eu apenas acho que eles eram ridículos”. Também parecia não dar muita importância à música minimalista: “Nunca ouvi nenhuma composição do Philip Glass. Eu suponho que elas têm muitas repetições”. Zappa detestava Mozart, Mahler e Beethoven, “os compositores que todo mundo gosta”, disse. Detestava particularmente a “Sinfonia Escocesa”, de Mendelssohn, talvez com a mesma intensidade que admirava Varèse e Anton Webern, referências fundamentais para compreender a sua obra. Álbuns como “The Yellow Shark” e “The London Symphony Orchestra” foram recebidos com muito entusiasmo e tornaram Zappa um dos compositores mais importantes das últimas décadas, talvez até de todo o século XX.

Pois bem, dando sequência à sua temporada 2011 dedicada à música do século XX, a OCAM – Orquestra de Câmara da Universidade de São Paulo, sob a direção artística e regência do Maestro Gil Jardim, apresentará a música de Frank Zappa na Virada Cultural. A programação no site oficial do evento informa os Yellow Shark’s works “Dupree’s Paradise”, “The Dog Breath Variations / Uncle Meat”, “Be-bop Tango” e “G-Spot Tornado”, com a participação da The Central Scrutinizer Band, banda paulistana que faz cover de Zappa há mais de vinte anos e que é uma das mais respeitadas em todo o mundo. A Scrutinizer, aliás, já trouxe para a Virada Cultural o cantor e guitarrista Ike Willis, que acompanhou Zappa por mais de uma década.

Frank Zappa e Pierre Boulez, 1989

Nas conversas de boteco, muito entusiasmo, mas também muita desconfiança. Executar Zappa não é fácil e há quem preveja fiasco para essa noite. O álbum “The Perfect Stranger”, de 1984, foi conduzido por Pierre Boulez, o regente favorito de Zappa e talvez o maior regente do século XX, à frente da Ensemble InterContemporain. Segundo Zappa, “Boulez encontrou uma série de dificuldades inesperadas para conduzir a minha música. Seus músicos são virtuosos altamente treinados e especializados em tocar música contemporânea. Mas minha música é muito diferente da maioria das músicas que eles tocam. Pedimos a muitas pessoas que toquem juntos vários ritmos diferentes”. De qualquer forma, o resultado desse encontro foi tão excepcional que torna absurdo o pedido irônico do próprio Zappa escrito no encarte: “Todo material contido nesse disco é destinado apenas à diversão e não deve ser confundido com nenhuma outra forma de expressão artística”. Diante disso tudo, quem duvida que a apresentação da OCAM e da The Central Scrutinizer Band na Virada Cultural será um dos maiores acontecimentos musicais do ano?

A apresentação será no dia 16 de abril, às 21h, no palco da Estação da Luz. Além das peças de Zappa, a OCAM também apresentará “Dances Ballet Estancia”, de Alberto Ginastera, e “Dumbarton Oaks”, de Igor Stravinsky. Como aperitivo, “G-spot Tornado”, do The Yellow Shark, com Frank Zappa regendo a Ensemble Modern:

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