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Uma coisa é uma coisa, outra coisa é definitivamente outra coisa

In Cinema, Crítica on 23/08/2010 at 10:20

Por Beatriz Macruz

Uma coisa é o filme de Christopher Nolan, outra coisa – completamente diferente, é o hype em torno dele. Não, “A Origem” não revoluciona o gênero de ficção científica; não, não botou uma trama surrealista pra dentro do esquema de Hollywood e não, não é um filme de intensos questionamentos sobre o ser humano. “A Origem” está mais perto, talvez, de ser uma história de amor do que qualquer outra dessas alternativas alardeadas sobre o filme.

O novo longa de Nolan não corresponde a essas expectativas que o hype (melhor dizendo, o marketing) projetou em nós. Dito isso, vamos ao que interessa: o que o filme tem de bom? Christopher Nolan é fiel ao seu ofício – o de cineasta, e respeita o cinema como narrativa, como forma de contar histórias.

A vantagem do filme em relação a tantos outros hollywoodianos é que se trata indiscutivelmente de cinema, a tal da sétima arte, e não de indústria. Nolan foi capaz de construir uma boa história e soube contá-la. Esse é o seu mérito. É isso que faz com que as quase três horas de duração não sejam sentidas e que ignoremos alguns dos problemas do filme. Nolan não entrega a trama de bandeja, mas não tem um formato narrativo revolucionário, de forma alguma.

Mesmo filmado e produzido dentro do esquema de grandes massas hollywoodianos, o filme consegue certa independência: o diretor bateu o pé e não filmou em 3D, e soube usar os efeitos especiais a favor de sua história e de sua narrativa, e não o contrário, o que resultaria num dos show pirotécnicos sem sentido que encontramos por aí.

Tá certo que vez ou outra Nolan tem uns delírios de grandeza e pesa um pouco a mão achando mesmo que está fazendo o novo “Matrix”, porém, diferentemente do que se têm dito por aí, ele não quer ser Buñuel e não quer falar sobre Freud. O filme até tem consegue cutucadas mais reflexivas, principalmente pra quem se deixa envolver bastante pela história de amor entre Mal (uma linda e sofrida Marion Cotillard) e Cobb (Leonardo DiCaprio, cada vez melhor), mas esse não é o seu grande objetivo.

Ao pensar o cinema como entretenimento e não como indústria, Nolan constrói alguns belos momentos em seu trabalho, como o já tão citado clímax estendido – e grande parte do mérito desse momento é da trilha de Hans Zimmer que quase faz a gravidade sumir a nossa volta, como no filme. Falando em trilha, bonitos também são os momentos em que a voz de Edith Piaf invade a tela trazendo os personagens de volta à realidade.

“A Origem” se propõe a ser um daqueles sonhos em que mergulhamos de cabeça. Deixe-se conduzir por Cobb e os outros personagens, pois é só assim que o filme funciona, como uma boa viagem para bem longe da realidade. Diversão e imersão pura. E não há nada de mal nisso, também é um papel que o cinema pode exercer.

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