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“Abandonada pelos homens e esquecida por Deus”

In Literatura, Resenha on 16/12/2009 at 04:53

Por Mariana Figueiredo

           Década de Noventa, Zona Sul, parque Santo Antonio. Na época, os índices de violência na região atingiam seu auge. É neste cenário que o autor Marcos Lopes faz sua obra de estréia: ‘Zona de Guerra’. Num misto de realidade e ficção, Marcos traz a tona um mundo de desilusões e desespero, vivido por aqueles que se encontram à margem do sistema.

            O livro conta a história de um grupo de amigos que além das dificuldades do cotidiano da periferia, tinham uma característica em comum: a ausência da figura paterna em suas vidas. A maioria desses meninos se perdeu pelo tortuoso caminho de uma realidade dura e indigna. A história foi baseada na experiência pessoal do autor, que já se envolveu no crime, enterrou seus melhores amigos e passou por poucas e boas com a polícia. Numa vida em que não se há tempo para sonhar e sobreviver é única questão.

Zona de Guerra de Marcos Lopes

             Apesar de se tratar de uma obra de ficção, o livro não deixa de apresentar um forte caráter autobiográfico, já que a narrativa trata da violência vivida por um grupo de crianças, que com a entrada na adolescência, tomam caminhos distintos e, infelizmente, tem um fim parecido.

             Inspirado pela obra de Ferrez, Capão Pecado – lançado em 2000 – este livro é um retrato do dia a dia dos moradores da região extremo sul da cidade de São Paulo, numa sociedade na qual a pobreza é criminalizada e a ausência do Estado é sentida na pele.

             Dono de uma descrição com a sentimentalidade que só quem vivenciou consegue expressar, Lopes produziu um romance no qual a narrativa é repleta gírias, aproximando sua obra do universo retratado. As verdades contidas no livro provoca o leitor com suas verdades que são quase um soco no estômago daqueles que se esquecem que “da ponte pra lá” existe uma parcela da sociedade que vive em uma situação deplorável.

Marcos Lopes na Casa do Zezinho/ foto Brunno Marchetti

             Marcos descreve como a infância daquelas crianças foi roubada pelo grupo dos ‘’Pés de Pato’, que tiravam o sossego dos trabalhadores e das famílias do P.S.A.-como é conhecida a região. No começo eram matadores de aluguel que protegiam comerciantes até que passaram a tomar o controle da situação.  Transformaram-se em um verdadeiro grupo de extermínio que ditava as ordens no local. As pessoas não viviam mais sossegadas. Sabiam que mesmo o menor dos delizes as colocaria na lista negra do grupo. As sentenças de morte eram expostas nos postes de luz. Muitos não sabiam o porquê de terem seus nomes escritos naquela folha de papel, mas tinham uma certeza: iriam morrer.

            Vale à pena entrar em contato com a obra deste jovem escritor que relata com a propriedade de quem vivenciou e vivencia diariamente a experiência de se viver em uma zona de guerra “abandonada pelos homens e esquecida por Deus”.

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